Novas pesquisas revelam uma razão crítica pela qual os tratamentos contra o câncer não funcionam para todos os pacientes: os medicamentos se acumulam de forma desigual dentro dos tumores, muitas vezes ficando presos dentro de “centros de reciclagem” celulares chamados lisossomos. Esta descoberta explica por que algumas células cancerígenas recebem uma dose letal de medicação, enquanto outras são pouco afetadas, mesmo quando os pacientes recebem o mesmo tratamento.
O problema com os atuais medicamentos contra o câncer
Avanços recentes no tratamento do câncer, incluindo medicamentos como os inibidores de PARP (usados de forma eficaz no câncer de ovário), melhoraram os resultados. No entanto, um número significativo de pacientes não responde a estes medicamentos ou desenvolve resistência ao longo do tempo. A chave não é apenas se um medicamento atinge um tumor, mas como ele se espalha dentro do tumor e nas células cancerígenas individuais.
Pesquisadores do Imperial College London observaram diretamente esse processo usando fatias finas de tumores ovarianos humanos reais mantidos vivos em laboratório. Ao tratar esses “explantes” com inibidores de PARP, eles puderam rastrear o movimento das drogas através do tecido tumoral real.
Mapeando a distribuição de medicamentos com imagens avançadas
A equipe usou duas técnicas poderosas para visualizar a absorção de drogas: imagem de espectrometria de massa (para mapear onde as drogas se acumulam) e transcriptômica espacial (para medir a atividade genética em áreas com alto e baixo teor de drogas). Os resultados mostraram enorme variabilidade na distribuição dos medicamentos, mesmo entre pacientes que receberam a mesma dose.
“Um aspecto inovador deste estudo foi o uso de imagens de espectrometria de massa para medir e visualizar diretamente a captação de medicamentos no tecido tumoral do paciente. Através do mapeamento espacial de moléculas de medicamentos, pudemos identificar regiões de alto e baixo teor de medicamento e comparar a expressão gênica, da mesma fatia de tecido, usando transcriptômica espacial.” – Dra.
Lisossomos: reservatórios ocultos de drogas
A pesquisa identificou os lisossomos como atores-chave nesta distribuição desigual. Estas estruturas celulares são concebidas para decompor os resíduos, mas alguns inibidores da PARP ficam presos no seu interior, transformando-os em reservatórios de libertação lenta.
Isto significa que algumas células cancerígenas recebem exposição prolongada ao medicamento, enquanto outras permanecem praticamente inalteradas. O estudo descobriu que este efeito é mais pronunciado com certos medicamentos (como o rucaparib e o niraparib) do que com outros (como o olaparib).
“Ficamos surpresos ao ver a grande variabilidade no acúmulo de medicamentos no nível unicelular. Essa variabilidade foi impulsionada pelo acúmulo de um medicamento nos lisossomos, que atuam como reservatórios, aumentando a exposição das células cancerígenas aos medicamentos, armazenando e liberando o medicamento quando necessário.” – Dra. Carmen Ramírez Moncayo
Implicações para o tratamento personalizado do câncer
Os inibidores de PARP já são usados para tratar câncer de ovário, mama e próstata, com ensaios em andamento em outros tipos de câncer. Compreender como os medicamentos são armazenados dentro das células pode levar a tratamentos mais personalizados que maximizem a eficácia e minimizem a resistência.
Os pesquisadores esperam identificar biomarcadores no tumor de um paciente que prevejam como os medicamentos serão distribuídos, permitindo-lhes adaptar a terapia de acordo.
Pesquisas futuras se concentrarão em como a distribuição de medicamentos através da corrente sanguínea, a estrutura do tumor e o armazenamento lisossomal interagem em pacientes reais. Isto é crucial porque os tumores no corpo têm vasos sanguíneos desorganizados, o que pode piorar a distribuição desigual dos medicamentos.
Este estudo ressalta a complexidade do tratamento do câncer e a necessidade de medicina de precisão. Ao abordar as razões subjacentes às falhas dos medicamentos, os cientistas podem aproximar-se de terapias mais eficazes para todos os pacientes.
A pesquisa foi financiada pelo Conselho de Pesquisa Médica, Cancer Research UK, Integrative Toxicology Training Partnership e Victoria’s Secret Global Fund for Women’s Cancers.
